Uma faculdade chamada Globalite
Era novembro de 2002 e eu conversava com meu amigo Diego no MSN quando ele disse que no provedor onde trabalhava surgira uma vaga para estagiário. Era um trabalho simples, atender ligações telefônicas de gente histérica, mal-comida e onanista desesperada pra resolver problemas que não tinham até assinar o serviço oferecido pelo tal provedor. Papo vai, papo vem, agendei uma entrevista com os chefes da empresa (onde o mais velho tinha 24 anos, minha idade hoje). Daqueles garotos metidos a nerd eu não esperava muita coisa, mas mesmo assim fiquei nervoso e a minha calça de tactel azul-marinho transpirou o suor do meu nervosismo pelo simples fato de estar ali, mediante o meu futuro primeiro emprego.
Lembro-me que o passado não jogou a meu favor, e mesmo se tratando de um estágio, uma certa bagagem é necessária pra se entrar num suporte técnico e lidar com o principal ativo da empresa: o cliente. Mas não sei porque causa, motivo, razão, circunstância ou sei lá o quê, aqueles garotos resolveram acreditar em mim. Eu ganharia 300 reais por mês por seis horas de trabalho mas mal sabia que o valor maior que eu levaria de lá após ser demitido, quando bati a porta na cara do dono, era a experiência que eu conseguiria.
Benditos sejam aquelas criaturas que me deram oportunidade de cursar uma faculdade que poucos profissionais de tecnologia podem dispor: a de Suporte Técnico com Ênfase em Salário de Fome e Especialização em Coxinha de Galinha com Água Gelada no Almoço. Mas não um suporte técnico convencional, daqueles que você senta na frente do desktop e fica com um headset pendurado na cabeça dizendo “sim, senhor” e “não, senhor”. Um suporte técnico daqueles que você cobra o escanteio, corre pra dentro da área e cabeceia pro gol. Quando a empresa passou por uma troca de proprietário, então, foi um deus-nos-acuda. Até servidor de webhosting, proxy, firewall e o restante da estrutura do CPD eu mexia, enquanto configurava conta de outlook e renovava IP de Windows 98 com cliente na linha e outro na sala de espera pra cobrar um boleto atrasado e reativar sua Internet “cortada”.
Por quê as empresas perderam esse espírito de oportunidade de descobrir talentos novos e só dão vagas a quem cursou uma Zé Ruela de Vasconcelos? Por quê elas insistem em desclassificar um sujeito que não teve a sorte de um ensino fundamental e médio DECENTE pra enfrentar um vestibular de universidade pública (privilégio, geralmente, pra quem tem dinheiro de pagar uma particular), ou não dispõem de 500 pratas pra cursar um meia-boca na Estácio de Sá?
Chega numa empresa dessas xinfrim, leitor, onde o copinho de café teoricamente descartável é lavado pela “moça do comercial” que quebra um galho de copeira nas horas vagas, e pede um emprego. Você não é entrevistado pelo que sabe, primeiro eles te pedem um papel dizendo que seu pai pagou todas as mensalidades ou então um diploma de faculdade pública, comprovante indireto de que o seu velho conseguiu dar conta de meses de cursinho pré-vestibular a fio.
Por mais besta que seja a empresa, por mais que ela fabrique parafusos de cobre número 5 para portas de madeira com olho mágico dourado, eles vão te pedir um atestado de competência que foi dado numa faculdade. Por quê esse atestado não vem com os três meses de experiência mais? Mas é assim, o Lula diz que tem emprego pra todo mundo, chego a me sentir como quem chora de barriga cheia quando leio seus discursos eloquentes e românticos sobre o espetáculo do crescimento.
Enquanto a vida segue e eu não tiro meu diploma, vou a despacito trabalhando das 8h à meia-noite pra ganhar uns trocados a mais no fim do mês. Neste meio tempo, vou blogando e esperando juntar mais alguns 2 centavos no AdSense, como um porco mercenário, enquanto os meus colegas se formam advogados e trabalham como assistentes administrativos, ao som do velho e saudoso Jayme Caetano Braun:
O estudo é muito bonito
e até muito necessário,
mas este cantor primário,
cruzando o pago infinito,
continua - a trotezito,
mesmo sem ser diplomado
e me sinto conformado,
o que é meu - ninguém me toma,
pois duvido que um diploma
torne um burro advogado!
Boa, Jayme.







Abril 17th, 2008 at 1:37 pm
Tem muita empresa que é burra mesmo. Já tive várias entrevistas de emprego por não ter terminado o maldito ensino superior, apesar da experiência comprada que meu currículo costuma dizer.
Se bem que compentência e uma boa rede de contatos se conseguem coisas boas. Eu mesmo consegui entrar em uma multinacional sem ter o tal canudo.
“Na sua cara, meio acadêmico!!!”
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Abril 18th, 2008 at 5:03 pm
eu tive uma vida academica atribulada mas me possibilitou umas oportunidades interessantes apesar de nao ter me formado.
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