Medo de ser o centro das atenções
Postado por Daniel Becher em set.18, 2008, categoria Vida alheia
Se quiserem, vejam o vídeo a seguir. Não é necessário pra entender do que eu vou tratar, mas além de engraçado, é um dos melhores — senão o melhor — exemplo que eu poderia dar sobre o medo de falar em público:
O sujeito em questão no vídeo é Lauro Rodrigues, candidato à Prefeitura Municipal de Curitiba no pleito que se avizinha.
Falar em público, por si só, não é o pior. Eu lembro que meu pai contou, quando se aposentou e começou a participar mais da igreja que ele frequenta, que fazer leituras numa missa era constrangedor demais pra ele, ele ficava muito nervoso, suava por quantos poros tivesse, tinha dores de barriga e demais sintomas de nervosismo. Quase na mesma época, ele entrou pro coral da igreja e lá, cantando, tinha menos vergonha e conseguia desenvolver melhor o que ele precisava fazer, no caso cantar, mesmo que com públicos iguais ou superiores aos da leitura.
O problema todo não é falar em público, apenas. Afinal, cinquenta mil pessoas num estádio de futebol, num grito de gol ou numa vaia, não ficam envergonhadas nem suam frio por isso, porque ali quase todos estão fazendo igual, estão imbuídos no mesmo fim, passam despercebidas. Além de não serem o centro das atenções individualmente, não há confronto.
Quando estive em Porto Alegre há algumas semanas eu passei por algo parecido. Por mais que eu estivesse num rádio, onde apenas a minha voz era ouvida e nada mais, dentro de um estúdio fechado, um ambiente aconchegante, apenas os colegas de programa e eu, pensar que eu falaria pra os mais 500 municípios do Rio Grande do Sul num rádio cuja audiência é grande, me deixou nervoso.
Não estava na minha cidade e por mais que eu admire a cultura gaúcha, eu não tenho o sotaque típico de um fronteiriço. Por mais que ninguém me visse, MUITA gente estaria me ouvindo. Então eu estava sendo confrontado, várias pessoas testificariam tudo o que eu falasse ali, qualquer pisada na bola eu seria a vergonha estadual nos meus quinze minutos de fama.
Devo ter falado milhares de abobrinhas, feito colocações inoportunas e o bloqueio que eu tive foi tão grande, mas tão grande, que eu lembro de todas os minutos em que estive naquela cidade, mas não lembro EXATAMENTE NADA (tirando uma ou outra passagem que a minha mãe fez questão de lembrar) do que eu disse nos microfones da Rural AM.
Tanto o que eu falo é verdade, que depois de achar o vídeo que abre este post no blog do Bernabauer, eu fui até o YouTube pra verificar algumas entradas relativas e achei outro vídeo, do mesmo sujeito, sobre o mesmo pleito, respondendo quase que exatamente as mesmas coisas que no debate de Curitiba:
Eu não sei a ordem cronológica destas apresentações em público do Lauro Rodrigues, mas agora também pouco importa, não muda a situação. Sozinho com a apresentadora do telejornal ele se saiu muito bem. Nervoso, é claro, as vezes um pouco titubeante, mas conseguia elaborar suas respostas e explaná-las de forma satisfatória sem longos intervalos e frases tolas quando ficava numa situação e se encolhia pra dentro de si.
Quando colocado sob o holofote da atenção e sabendo que poderia se fuder de primeiro a quinto com as perguntas dos concorrentes (mesmo que perguntas leves, já que transpareceu que ele não é forte concorrente -- “não se gasta vela com defundo ruim”), ele não guentou o tranco.
E é por essas e por outras que eu adoro escrever em blogue. EU me sinto a menina Maysa (sem trocadilhos, ok?) em pleno programa infantil tagarelando serelepe, mesmo sabendo que estou escrevendo pra mais de 290 pessoas nos feeds e tantas outras que aparecem exporadicamente ou mesmo caem de paraquedas.
- Eu tenho o domínio dos comentários deste blog, se eu não quiser o comentário não vai ar. Ora, não há confronto direto.
- Eu posso dar backspace e a asneira que eu escrevi será totalmente alterada num piscar de olhos, não há a preocupação em não falar uma merda “ao vivo”, aos MEU ver.
- Posso estar no meio de um texto como esse e sair pra tomar um café da tarde tranquilamente, e retomar o trabalho somente quando me der na telha.
- Não tem um grupo de blogueiros ao meu lado enquanto escrevo querendo que eu comprove cada argumento (não estou falando que posso falar qualquer asneira, entendam!).
E eu posso terminar este post de forma inesperada, como vou fazer agora, sem dar uma conclusão que já está implícita no texto, como fez o nosso nobre candidato das eleições majoritárias da sua cidade, que quando se via encurralado, mandava cortar e pedia desculpas memoráveis pra toda Curitiba.























setembro 18th, 2008 on 3:01 pm
Grande Daniel… excelente texto. Este nervosismo deve ter alguma raiz em um sentimento de baixa auto estima. A partir do momento em que ser o centro das atenções passa a ser algo cotidiano, este sentimento muda, passando para estágios mais leves até ser totalmente desfeito. Abraços e deixe de preguiça, movimente mais o blog ai, pois ele vicia igual chimarrão… hehehehe
setembro 19th, 2008 on 9:09 am
É verdade, é questão de prática… mas sei de atores, atrizes, radialistas que até hoje sentem algumas cólicas quando entram no palco/estúdio.
Quanto à frequência, vou tentar melhorar sim… mas sabe como é, correria de sempre! Quando eu tinha só um blog era mais fácil, e quando eu só trabalhava num lugar também!
E obrigado pela visita e pelo comentário, abração!