Linguiça calabresa: da forte ou da fraca?

O vivente chega no Galpão Crioulo, churrascaria famosa de Porto Alegre, lá do Parque Harmonia, depois de estar acostumado com as mesmices das casas de orgias alimentares baseadas em churrasco em Santa Catarina, e fica admirado. É tanta variedade de carne nobre, de curiosidades, nomes diferentes ao que ele conhece, como por exemplo trocar o nome a peça de carne fraldinha por “vazio”, que até dá pra ganhar uma “congestã”, como dizemos aqui quando algo não cai bem.

Lá pelas tantas, o garçom, pilchado até os dentes e rasgando o taco do assoalho com as chilenas presas ao garrão, oferece um embutido:

- E aí, vai uma linguiça calabresa?

- Manda!

- Da forte ou da fraca?

Nunca pergunte pra um gaúcho taura, desses da venta brasina, se ele prefere algo forte ou fraco, se ele quer açúcar ou adoçante na caipirinha, se a costela dele é com ou sem gordura, se o mate é morno ou com água pelando, etc. Ele vai querer sempre entrar no que engorda, mata, dá câncer e o escambau, ele não atravessa a rua quando vê o perigo. E a prosa seguiu, a despecito…

- Da forte, tchê. Tá me estranhando?

- Puês, toma então!

Ele dá a primeira e a segunda. Na terceira mordida, já botando fogo pelas ventas, um pedaço de pimenta mal picado atravessa a goela, tal qual o par de espora do somelier dos pampas arranhando o chão da churrascaria. A cabeça fica inchada, a cara já está quase da cor da mesma pimenta, tá bebendo a terceira dose de algo bem gelado… a quantidade de pimenta era tanta que nem mesmo uma lágrima deixou de rolar do olho esquerdo do índio quebra. O garçom, meio alheio a tudo, também não resistiu o desaforo e perguntou, assim com desdém:

- Que é isso, tchê? Tá muito forte?

O mané, na mesma moeda:

- Que nada, hombre! Tu continuas me estranhando? Tô chorando de saudade de Florianópolis…

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