Counter-Strike não me formou assassino

Era final de 2001 ou de 2002, preciso colocar os pensamentos em ordem para ter certeza da data. Eu comecei a jogar o tal de Counter-Strike. Como aqui no prédio tínhamos (e ainda tenho - isso é que é fidelidade de cliente) internet predial à rádio, a mesma enceja que estejamos ligadas à um hub/switch sob forma de rede local. Aproveitávamos para criar um servidor e a turma toda jogava. Cada headshot com pistola do outro lado do Assault (Um dos mais jogados mapas para o CS, pra quem não conhece) era comemorado pela janela dos que tinham-na virada para o fosso. Não havia tanta necessidade do fone, o jogo todo era narrado e gritado e todos perfeitamente ouviam.

Depois o vício foi aumentando, e algumas all-nights foram marcadas. A Adrenaline, uma rede de lan-houses conhecida por aqui, fazia uns pacotes pro pessoal ficar jogando das 23h às 6h da matina. Regado a muita Coca-Cola 2 litros e Fandangos de queijo, passávamos horas e o sono não incomodava nem arruinava a pontaria no jogo que continuava impecável.

A coisa foi ficando mais séria quando eu adquiri o jogo e com a CD-Key original, enquanto não tinha ninguém disponível para brincar na nossa mini-lan, eu acessava os servidores do BrTurbo e os demais servidores gratuitos de CS. Era realmente algo fascinante, eu não parava de jogar.

Plantando bomba no CS

O mais engraçado é que eu jogava, geralmente, ouvindo rádio e TV e nestes meios, recheados de coisa ruim, notícias de homicídios, estupros, acidentes de trânsito e demais desastres que punham em risco à vida humana, nenhum dos culpados que eram encontrados para uma entrevista tinham cara de jogadores de Counter-Strike. Não mesmo.

Nenhum dos que subiu o morro para conseguir um revólver calibre 38 com a numeração raspada tinha acabado de sair da all-night com os ouvidos ainda inchados e ouvindo involuntariamente os tiros de uma sniper daquele camper (jogador que ficava acampado, escondido, para dar o bote) filho da puta que sempre ficava escondido no De Aztec enquanto o adversário na mira plantava a bomba para os terroristas, os do jogo.

Segundo dados das “faculdades universitárias de Massachussetz”, 0,001% dos crimes hediondos com requintes de crueldade registrados no Brasil tiveram como principais suspeitos ex-jogadores compulsivos de CS que esfaqueavam seu oponente no mapa CS Italy ao som de Pavarotti, após ter acabado a pouca munição daquela 12mm punheteira que só não matava se o cara fosse muito mirolho.

E eu acredito veementemente, dr. juiz de direito Carlos Alberto Simões, que nenhum dos jogadores de Half-Life do Brasil vai ficar campeirando na frente da sua casa, ou plantar uma bomba na zona B do seu terreno ou apartamento luxuoso, menos ainda jogar uma smoke granade dentro do seu carro enquanto lhe esfaqueia com requintes de crueldade, tal qual fazemos no jogo supracitado.

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Sabe por quê? Porque o Counter Strike não gera assasinos. Quem joga, via de regra, não se ilude com o modesto e nada violento jogo de tiros em primeira pessoa pensando que na sua plena cidadania ele possa dessa forma resolver seus problemas e desafetos. Muitos o fazem, assim como eu, em busca de lazer seguro, por mais contraditório que isso possa parecer. Porque, insisto, por mais contraditório que isso seja, eu prefiro mil vezes ficar matando meus amiguinhos virtuais e de forma virtual, é claro, no conforto do meu lar, do que ser assaltado ou acabar sendo espancado num estádio de futebol, caro Dr., durante uma briga violenta de torcidas. Ou, ainda, ser atropelado enquanto pratico o saudável lazer de caminhar numa marginal de avenida beira-mar.

Aliás, o Sr. conhece o mapa CS Rio? Num dos locais do jogo, roda a música do saudoso Bezerra da Silva mais ou menos assim:

Meu vizinho plantou, uma semente no seu quintal. De repente brotou, um tremendo matagal. Meu vizinho plantou…

Nunca vi maconha rolando em lan-houses, menos no meu grupo de amigos que jogava este jogo rolava. Mas é muito provável, muito provável MESMO, que meu filho enfrente este risco quando saia pela porta da escola em que ele vai estudar, pública ou privada. E estão ali, Dr., os verdadeiros riscos e bandidos. E com eles, lamento, não vejo acontecer nada.

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Este post foi inspirado após a decisão do juiz Carlos Alberto Simões de Tomaz, da 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais, que expediu uma decisão proibindo a venda do jogo Counter-Strike, a qual DISCORDO porém RESPEITO, no meu pleno exercício em defesa da democracia e liberdade de expressão. Fonte.