Eu lembro quando a MTV começou ostensivamente a passar o clipe novo da Toni Braxton, Unbreak My Heart. Recordo-me que, na época, no início de uma puberdade feliz, explosão de hormônios, mãos puro-pêlo, aquela coisa toda de adolescente, era um tanto quanto excitante ver os lábios cheios pelo batom cor-de-pecado de Toni.
Nem mesmo aquele homem negro forte e curtido em academia ofuscava as curvas estonteantes da cantora. Na ânsia de que a TV musical mais popular da época não parasse de exibir o tal clipe, eu ligava ostensivamente para votar no TOP 10 do dia. Provavelmente, outros garotos animados e lépidos como eu, ao ver tantas curvas, aquela cor, voz e cabelos, faziam o mesmo, pois ela ficou um bom tempo no hit parade.
Mas aí aparece um carioca metido a cantor de churrascaria e acaba com tudo. Acaba com os desejos que outrora tive com a cantora de R&B, acaba com a memória sadia, inocente e sacana ao mesmo tempo que povoava a minha cabeça aos 13 anos de idade e acaba com qualquer resquício de um passado não tão distante, mas que me trazia como legado uma experiência bacana como telespectador da MTV e adolescente.
Voz desafinada, figurino comprado na 25 de Março e dedilhando um violão como quem esbofeteia um cachorro sarnento.
Obrigado, Nick Ellis. Muito obrigado por isso. Tomara que acabar com tudo isso tenha valido a pena pelo menos pra ganhar o Desafio LG.
Nos idos de 1925, na cidade de Assunción (Paraguay) um cidadão chamado José “Assunción” Flores criou um ritmo musical diferente. Contam as enciclopédias que este ritmo visava definir, na época, uma espécie de caráter paraguaio e o pouco que li na Wikipedia sobre o assunto me leva a crer que foi uma espécie de “engauchamento” da música dos nossos chapas além fronteira oriental — já que as músicas tradicionais gaúchas, em seus mais variados gêneros, têm essa meta: o resgate da cultura, dos costumes e da tradição heróica do seu povo.
Também conta-nos a enciclopédia digital que a Guarânia chegou ao Brasil por intermédio dos próprios paraguaios que vinham ao estado do Mato Grosso do Sul para trabalhar nas lavouras de erva-mate (taí mais uma grande coincidência gaudéria). Mais incrível ainda é que esse ritmo chegou ao nosso país pouco mais de 15 anos da sua “criação”, logo na década de 40. Com o passar do tempo, a guarania passou a fazer parte da nossa música sertaneja, das modas de viola caipira conhecidas também no interior de São Paulo.
Raul Torres foi um dos precurssores deste ritmo e gravou duas grandes canções que até hoje lembramos — o que poucos de nós sabem é a real história do ritmo e a origem, sendo confundida com a música sertaneja típica de raíz. A primeira dupla a gravar guarânias, principalmente as de Raul, foi Cascatinha e Inhana. Até hoje essas canções são conhecidas em outras vozes, como o caso de “Colcha de Retalhos”, difundida por Chitãozinho e Xororó ad nauseum. E é com ela que começamos o Top 5 de hoje:
Cascatinha e Inhana - Colcha de Retalhos
Cascatinha e Inhana - Índia
É com uma participação história da dupla acima citada num antigo programa do “Viola, Minha Viola”, apresentado ainda pelo Rubens ‘Moraes’ Sarmento da TV Cultura que fazemos a primeira dobradinha. Também composição do saudoso Assunción Flores e arranjo de José Fortuna, regravada, a exemplo da primeira, em vozes famosas como a do cantor da jovem guarda Roberto Carlos.
Matogrosso & Mathias e Joaquim & Manuel - Boate Azul
Falar em guarânias e esquecer de Joaquim & Manuel é dar um tapa na cara da cultura e da música caipira, é uma tremenda heresia. Joaquim e Manuel cantavam há bastante tempo, antes mesmo de muitos que lerão este texto nascerem, guarânias que ainda hoje são lembradas e entoadas desde zonas do baixo meretrício, botequins de esquina, até casas noturnas de excelente estirpe. Boate Azul talvez é a mais conhecida, prova disso é o disco de ouro internacional que a música proporcional à dupla. Bruno e Marrone, em seu acústico em 2001, também gravaram Boate Azul, mas quem deu as honras de quem a gravou originalmente dar uma palinha foi Matogrosso & Mathias, como vejos no vídeo abaixo, retirado do seu recente DVD ao vivo:
Chitãozinho e Xororó - Fio de Cabelo
Sim, Fio de Cabelo, gravada por Chitãozinho e Xororó também é uma guarânia. Essa dispensa apresentações, então curta a nostalgia proporcionada pela canção e só.
Tio Parada Dura - Telefone Mudo
Uma das poucas formações musicais que não aboliu ou sequer esqueceu da gaita de fole que dá um brilho todo especial às guarânias. Telefone Mudo é outro clássico do ritmo paraguaio abrasileirado e também foi exaustivamente regravado por toda e qualquer dupla sertaneja de renome.
Tantas e tantas outras guarânias caberiam neste post, mas como não quero me alongar, o YouTube está aí pra você se aprofundar nos seus conhecimentos, caso queira.
E espero que estejam gostando das músicas um tanto quanto diferentes pra maioria de vocês que tenho postado, mas vão se acostumando, pois se vocês lêem o Hit Na Rede, em breve verão um outro ritmo latino (predominantemente argentino) que foi introduzido fortemente na nossa cultura na série Top 5 de lá. Aproveita e ouça 5 músicas baianas para te tirar do ócio, lista do Roberto Câmara Jr.
Duas coisas pra mim são essenciais pra que eu goste de uma música. A primeira delas e talvez mais importante é que elas DIGAM alguma coisa. É claro, a música instrumental, que dependendo o naipe eu também admiro, não se encaixaria muito nesse critério. Mas pra mim é fundamental que o cara que compôs uma letra me diga algo, me acrescente de forma positiva uma certa história, um acontecimento, um protesto que seja, mas que adicione. Gosto de músicas que me alegrem, mas ouvir um funk (e aqui vou generalizar, SIM, porque NENHUM FUNK conhecido diz coisa com coisa) ou um Latino da vida mesmo que sejam músicas “alto astral”, acabam me criando mais repulsa que outra coisa.
A segunda, menos importante que a primeira, mas também importante, é o ritmo. O mais engraçado disso tudo é que as músicas chamam atenção, mais das vezes, justamente pelo ritmo. Comigo pelo menos é assim, se uma música “não fecha” e não vibra nos meus tímpanos de forma agradável, eu nem chego a ouvir a letra. Outras, quando tento entender o que o cristão queria falar, mesmo que tenha uma melodia gostosa, acabo descartando (isso acontece muito com músicas estrangeiras que acabam caindo na graça de duplas sertanejas ou da Sandy, por exemplo, que estragam a porra da canção).
Talvez por isso o meu gosto musical sempre tenha sido diferenciado, ou grande parte por isso. Eu raramente gosto das músicas que são “da moda” e isso não é nenhum sentimento de rebeldia ou hipocrisia encalacrada e travestida de qualquer forma de protesto. É gosto, curiosidade pela história e coisas desse gênero.
Falem o que quiserem, mas a música sertaneja, de raíz, me desperta isso. Assim como a música gaúcha, em maior escala porque eu sou fã de carteirinha da cultura rio grandense. Esse interesse também passa pela música popular, o que muitos chamam de música “brega”.
O primeiro do quinteto que eu vou listar neste post, mesmo não se limitando a cinco os cantores/duplas/compositores que eu gosto e que de fato produzem um trabalho musical que vale a pena escutar, é o Moacyr Franco. E não, não foi coincidência eu postar sobre isso justamente depois que o Janio quebrou os grilhões do preconceito e deu a partida falando dele, aliás foi justamente por aquele post que me surgiu o interesse em concordar e falar sobre o tema.
1. Moacyr Franco
Moacyr, na minha modesta opinião, tem péssimas esquetes de humor, principalmente quando ele tenta fazer aquele personagem da Praça É Nossa (que por si só já é uma explicação) totalmente sem graça que eu nem recordo o nome de tão chato. Mas apesar de ele cagar o seu filme (e pelo jeito pouco está ligando pra isso) com aquela chatice ao lado do Carlos Alberto de Nóbrega, há de se reparar não só nas letras que ele mesmo canta, mas que compôs numa época e ainda compõe para outros cantores ou duplas, mas na forma, como no carisma que ele conduz as canções e a forma como conta as histórias nas canções.
2. Amado Batista
“No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você morrendo a sorrir. E o seu sorriso, aos poucos se desfazendo, então vi você morrendo, sem poder me despedir.”
É uma história que, pra mim, fala muito mais que um “I kissed a girl”, por exemplo, mesmo preferindo ter visto a cena da Kate Perry beijando outra garota do que a mulher do cara morrendo na sala de cirurgia a sorrir como uma hiena.
3. Odair José
Esse cara, que em 1977 chegou a ser considerado por alguns como o “Bob Dylan” brasileiro, também tem espaço aqui nessa lista. Trago ele com a música “Eu vou tirar você desse lugar”, essa sim brega ao extremo, que os rockeiros do Los Hermanos regravaram recentemente.
“Eu vou tirar você desse lugar (…) e não interessa o que os outros vão pensar”. Isso sim é atitude
4.Jessé
Esse cara morreu novo, com apenas 41 anos de idade teve a vida ceifada em um acidente com seu automóvel Escort conversível (1993) em Ourinhos, São Paulo, quando ia fazer um show no Paraná. Tony Stevens, como era conhecido num trabalho em inglês na década de 70, emocionou bastante gente com suas canções e sua boa voz. Com certeza mais uma pérola da música popular e das rádios AM.
5. Rosana
Haveria tantos e tantos outros cantores que fazem o popular romântico, mas pra fechar a lista com chave de ouro e não ser acusado de sexista, cá trago uma moça que também muito fez sucesso na década de 80. O Amor e o Poder, que também ficou conhecida como “Como uma Deusa”, é o grande sucesso da moça. Ela ainda tenta fazer sucesso e recentemente fez lipoaspiração e cirurgia no abdome pra ficar mais bonita prás “telinhas”.
E por hoje é só.
Este post é um aquecimento pra uma TOP 5 musical que farei no Hit Na Rede, da Cler Oliveira, daqui algumas semanas. O estilo musical fica no ar, mas eu já dei uma dica neste texto sobre qual linhagem eu vou seguir. Até lá.