Bem de vida, podre de rico e frivolidades do mundo moderno

Você tem um tio bem de vida? Quase toda família tem um que é bem de vida, que tem um casarão na praia, um emprego importante, dá entrevista em jornais, programas de TV local por assinatura e rádios AM esporadicamente, anda por aí não somente com um carro do ano, mas com o CARRÃO do ano e geralmente é o alvo de críticas daquele outro tio menos abastado mas que sabe conversar sobre tudo e todos, tem idéias fantásticas, que sabe tudo de negócios mas que estranhamente continua pobre discutindo suas fantásticas soluções-para-tudo na mesa de um boteco. Este é o famoso tio bem vida.

Já o tio podre de rico é diferente. O tio podre de rico tem o carrão do ano que só mais 10 pessoas na cidade têm, tem a mensão mais fodástica daquele loteamento na praia, tem uma casa com 15 quartos sendo 14 suítes e uma pro cachorro que toma banho numa jacuzzi instalada na área de serviço, come comidas gostosas com nomes difíceis na sua cozinha hi-tech montada por um cheff contratado, se veste com peças de roupa que cada uma custa o seu salário de dois meses e toma vinhos da mesma uva que você compra por R$1,78 no supermercado perto de você, porém um conjunto de babacas disse que custaria a prestação da sua casa própria.

E é aí que eu quero chegar: o que é a MODA senão convenções de estilistas homossexuais que agem como idiotas coletivamente, contratam modelos anoréxicas com rosto de boneca e decidem que aquele trapo medonho vai custar os olhos da cara?

O que é o bom gosto para vinhos senão uma uva com nome esquisito e geralmente com T, G e P mudos, produzida no sul da Itália por um excelente enólogo e pisoteadas delicadamente, envelhecidas em barrís de madeira nobre e, assim como a moda, revisadas por críticos agindo como idiotas coletivamente?

EnólogoOlha o jeitinho…

Quando você vai no supermercado e decide entre o manteiga e margarina, é simples entender o porquê: a manteiga tem uma concentração de leite e é feita de gordura animal enquanto a margarina é um composto de plástico derretido e outras porcarias que se você conhecesse, não tomaria mais café da manhã. Mas qual o fator determinante entre o preço elevado de um vinho Mertlot, Sautern, Malbec ou Cabernet Sauvignon perante um Sangue-de-Boi com tampinha de metal?

É claro que é o idiotismo coletivo. Se eu pegar um punhado de uva, colocá-las para produzir um vinho, deixar envelhecendo até 2015 e colocar na prateleira de um supermercado, ninguém vai pagar 180 pilas por ele. Afinal, nenhum grupo de enólogos com suas super-papilas gustativas privilegiadas pelos deuses da gastronomia fez uma crítica ou colocou numa taça de cristal, deu aquela mexidinha básica, sorveu um gole, cuspiu num balde de prata e tal-qual uma gazela abichalhada proferiu: ma-ra-vi-lho-so!

Se um dia, por acaso, me perguntarem se eu quero ser o tio bem de vida ou o tio podre de rico, eu tenho a resposta pronta:

Bem de vida. Não quero ter na minha idade avançada nem pouco dinheiro que me obrigue almoçar arroz com dobradinha e refrigerante barato, nem muita grana que me obrigue aparecer para minha rede de relacionamentos um tanto quanto afrescalhado com as frivolidades das coisas chiques. Até porque elas não passam de uma convenção coletiva de idiotas, um grupo que, sem sombra de dúvida, eu não ei de participar.