Barbosa e Eu

Sempre que eu preciso lidar com algum funcionário ou instituição pública, minha cabeça entra parafusos. Não raro eu entro numa crise ética, preciso rever meus conceitos e valores morais e passar por um exame de consciência e caráter muito aprofundado. Mas nunca faço isso sozinho, sempre chamo meu amigo Rui, um amigo já falecido mas que me acompanha com suas imortais palavras no interím das minhas provações existenciais.

Ontem estive acompanhando a senhora minha mãe num hospital público por conta de uma gripe de deixar peão valente rengueado na cama e tive a leve sensação de estar no inferno. Não o inferno astral, menos ainda o espiritual. Um inferno real, com demônios por todos os lados e mazelas acontecendo à revelia.

Pessoas de todos os tipos, raças e costumes adentrando aquele recinto inóspito com dores das mais diferentes marcas e modelos. Uma moça grávida falando palavrões e fumando inveteradamente; uma outra carregada nos braços por um policial após tentar se suicidar com uma gama imensa de analgésicos; outros três vítimas de suas burrices em acidentes com motos com fraturas expostas e sangue escorrendo às ventas; uma outra senhora de meia-idade caindo no meio da emergência do hospital e desmaiando, ficando ali cinco minutos inerte, até a chegada de um enfermeiro com uma cadeira de rodas para socorrê-la.

No ápice do tumulto, da gritaria, enfim, do caos que estava instaurado naquela instituição pública de saúde, aparece um Doutor, muito bem trajado e afeiçoado, parco, com semblante inalterado pelo inferno que presenciava, dando explicações pela demora no atendimento. Ele, médico da parte cirúrgica, com o cargo de coordenador da emergência em suas mãos, pedia desculpas pela presença de apenas UM clínico geral para atender toda aquela manada de gente amontoada nos bancos de estofados pretos e desconfortáveis daquele inferno ali manifestado, dizendo que a culpa, na verdade, era do Governador, do Secretário da Saúde, e pedia calma à intolerância daquela gente rude e maltratada.

Já fazia 5 horas que estávamos ali rezando dentro do inferno, clamando por Deus perante o Diabo, quando desistimos de uma simples consulta, de uma radiografia que acusasse algum estado avançado de sinusite ou qualquer coisa que justificasse as dores intermitentes da minha querida mãe. Sequer uma nobre senhora, com uma aparência castigada por alguma mazela física, que chegara por volta das 14h para fazer companhia ao capeta, havia recebido a atenção digna de uma ser humano.

Descendo a Rua Santa Rita de Cássia, noto a viatura da RBS TV saindo para gravar entrevista com outros pobres diabos em algum outro inferno da região metropolitana. Para casa, levávamos não somente a dor que não foi curada da minha mãe. Voltamos com uma sensação de impotência, de tristeza, de que alguém estava tentando nos fazer de otários. Carregávamos um cansaço existencial tremendo e a certeza de que em poucas horas o dia iria clarear, e estaríamos trabalhando denovo, com ou sem nossas dores, para sustentar um governo, ou melhor, um sistema que não funciona e nem nos provê o básico para continuarmos dando esse retorno chamado carga tributária.

Rui Barbosa

Quando dobrava a Santa Rita de Cássia para pegar a descida da Antonieta de Barros, meu amigo Rui me deu boa noite, pôs seu braço direito estendido no meu ombro e meio consternado me disse algo parecido com “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Tentei contestá-lo, mas já havia ido embora o velho Barbosa. Talvez na próxima eu consiga te contestar, meu amigo. Mas eu acho que não. Uma boa noite pra ti também.

Créditos da foto: Biblioteca Digital Rui Barbosa

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2 Responses to “Barbosa e Eu”

  1. Rafa disse:

    Um triste relato, e um excelente post. Faltou o nome do hospital, apesar das ruas próximas entregarem o endereço do inferno.

    Abraços

  2. Infelizmente, cada vez pior a situação. Granadas seriam pouco…
    Melhoras para a mami. :)

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