Analisando a vida alheia: reparando nas aparências
Nessas minhas andanças pela capital catarinense, muito pude absorver tanto dos vícios quanto das virtudes do povo manezinho. Apesar de não ser um sujeito muito social, daqueles que chamam de arroz-de-festa, as idas ao supermercado ou mesmo nos postos de combustíveis costumam ser muito enriquecedoras culturalmente.
Ultimamente tenho reparado muito nos cidadãos ditos moradores de rua, ou se não chega neste grau de pobreza, mas que levam uma vida miserável beirando a linha tênue que separa uma letra nos níveis das classes, simplesmente pelo fato de ter ou não um teto. Não que eles me despertem qualquer interesse em estudá-los ou coisa assim, mas tenho cruzado com bastante gente das classes D e E, sejam flanelinhas, mendigos, pessoas pobres, pedintes, etc.
Por lidar bastante com essa gente, pouco me admira ou me assusta a forma como se vestem, tratam as outras pessoas e se relacionam com o meio. Seu palavreado, seu jeito de agir ou se portar. Mas hoje uma coisa me chamou atenção. Estava num posto de gasolina e — isso virou mania por aqui — haviam três rapazes aparentando uns 20, 22 anos, fazendo o famoso “esquenta” pra “night” no lado de fora, próximo ao estacionamento. Entrei na loja de conveniências, comprei meu cigarro e voltando pro carro vejo passar por eles um sujeito pobremente vestido com uma calça de agasalho preta desbotada, uma blusa de lã branca meio esganipada e uma sombrinha infantil azul-calcinha. Transcrevo a abordagem dos garotos:
- HAHAHAHA! Que linda a tua sombrinha!
O sujeito pára, olha pra trás com uma cara de poucos amigos e manda:
- Qual o problema, cara? Comprei com meu dinheiro, amigo.
- HAHAHAHAHA! - Os pivetes continuam na gargalhada enquanto o cara desfere um upper-cut de direita:
- Comprei com meu dinheiro, rapá. E tu, que tá tomando cerveja com dinheiro do teu papai?
Para encurtar a história, o pivete que começou a gozação não sabia onde enfiar a cara. Perdeu a grandecíssima oportunidade, considerada por muitos MUITO valiosa, de ficar quieto, na dele, sem passar essa vergonha. A situação havia se invertido. Agora eles eram o alvo das piadas, os frentistas passaram a ser os gozadores e o sujeito maltrapilho era o verdadeiro fodão do bairro, aquele que come a irmã de todo mundo e decide se jogam Detetive ou Banco Imobiliário quando na infância.
Analisando a vida alheia, mesmo que de longe, posso constatar, seguramente, que as aparências enganam.
- Publicado por Daniel Becher na categoria: Pessoal
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2 comentários em “Analisando a vida alheia: reparando nas aparências”
#1
¬ Rafael
abril 21st, 2008 as 12:41 am
Boa, mas o cara ainda teve sorte que a molecada não era “do mal” por assim dizer. Nessa nossa cidade, por muito menos nego sai quebrando o pau em posto de gasolina.
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#2
¬ Ricardo Rayol
abril 21st, 2008 as 8:08 am
merecido, mesmo que a mendicância tenha se tornado um negócio por aqui o playboy deveria ter ficado na dele.
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