A empregada e o taxista
Pobre Sirley. O único erro que ela cometeu na vida foi ser igual a grande parcela dos brasileiros. Pobre. Empregada doméstica, aguardava o ônibus após um dia de trabalho suado e, confundida com uma prostituta(?), apanhou covarde e cruelmente de vagabundos (não aqueles vagabundos que vimos comumente no noticiário policial), mas vagabundos com dinheiro no bolso.
Sirley Dias de Carvalho Pinto além de sofrer agressões físicas duríssimas, foi roubada pelos marginais. Mas não são marginais destes que passam fome e roubam para comer, são marginais filhinhos-de-papai que estudam em universidades pagas e participam de festas regadas a muita bebida, drogas e gente vazia e frívola das suas laias.
Peraí. Eu disse Universidades pagas? Disse. Felipe de Macedo Nery Neto tem 20 anos e é estudante de administração de empresas da Universidade Gama Filho. Júlio Junqueira é coetâneo de Felipe e é acadêmico do curso de direito da Universidade Estácio de Sá. Rodrigo Bassalo e Rubens Arruda ajudam a elencar o bando.
Eu passei o dia pensando no caso enquanto fazia minhas atividades normais. Aquelas atividades que todo ser que, diferentemente da corja supra-citada, realiza quando não faz sua higiene anal com onças-pintadas da Casa da Moeda. Mas foi frustrante: não consegui pensar em nenhuma motivação, nada que justificasse a agressão e o roubo. Fôssem eles pobres, marginalizados e injustiçados da sociedade feia e boba, ainda não justificaria, mas explicaria. Mas não. Eram ricos. Não passaram o dia todo suando igual Sirley. Voltavam de festa, segundo a polícia, drogados.
Mas confesso que esqueci da pobre Sirley durante as minhas reflexões. Releguei-a ao segundo plano. Menos ainda pensei muito no taxista, o único a fazer justiça até agora, que anotou num papel o número da placa do carro que provavelmente era bancado pelo pai de um deles, com gasolina por conta e tudo mais.
Um estudava para, possivelmente, ser um chefe seu, leitor, numa dessas holdings que seu pai administra e deixaria como legado. O outro, como futuro advogado, juíz ou promotor, provavelmente lutaria para fazer justiça quando você precisasse dela.
Mas eu temo que o leitor tenha ficado triste com esta notícia, principalmente ao saber que estes são exemplos dos advogados, médicos, administradores, economistas e profissionais em geral, do futuro.
Temo também que o leitor deixe de acreditar na Temis, que da mitologia grega tornou-se deusa da justiça. Da lei e da ordem. Aquela que aparece na ilustração: numa mão, a espada desembainhada. Na outra, a balança. Mas os seus olhos, vendados, demonstrando que a justiça é cega. Outrora, por simbolizar a retidão da justiça. Por hoje, pois tenho a sutil impressão de ser mais um caso de que a cegueira venha aliada à burrice.
“A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. A espada sem a balança é a força brutal, a balança sem a espada é a impotência do direito” - Rudolf Von Ihering.
- Publicado por Daniel Becher na categoria: Críticas Notícias
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8 comentários em “A empregada e o taxista”
#1
¬ Danilo Debiazi
junho 26th, 2007 as 1:48 am
Isso me lembra quando alguns playboyzinhos queimaram um mendigo do nada. Engraçado que o pai de um dos jovens achava que o filho era calmo e responsável.
Eles não sabem o que os filhos deles aprontam por ai.
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#2
¬ Mariano
junho 26th, 2007 as 10:09 am
A moça deu sorte!
O taxisisca com uma placa anotada pouco poderia ter feito…
A real, é que os patrões da moça tem grana e influência e peitaram a situação e criaram, graças a Deus, este circo todo!
Uma pena que nem todo o injustiçado tem esta sorte…
Em tantos outros casos, nada acontece!
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#3
¬ Shridhar
junho 26th, 2007 as 11:14 am
Acho que o negócio aqui é que isso não aconteceu porque esses caras são boyzinhos. Isso aconteceu porque os pais desses caras são uns irresponsáveis, como a entrevista com um deles mostra. O que irrita é que, justamente porque esses caras são boyzinhos, a justiça será mais leniente com eles.
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#4
¬ Veridiana Serpa
junho 26th, 2007 as 11:59 am
Becher tb fiquei muito indignada com toda essa situação e tb escrevi um texto a respeito… posso indicar esse aqui lá no blog?
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#5
¬ Carol
junho 26th, 2007 as 5:56 pm
Becher, vc tem toda razão quando diz que passou o dia pensando nos “FDP”, eu também tive a mesma reação, fiquei me lembrando do pobre índio que foi queimado por ter sido confundido com um mendigo. Depois vejo no noticiário o pai de um deles dizendo que as “crianças” tinham reconhecido o erro, mas que ao invés de serem punidos, deveriam continuar na faculdade. O que me confortou foi ter a notícia que ainda existem pessoas boas como este taxista. Estamos vivendo um caus sim, da moral, da ética e dos bons costumes.
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#6
¬ DM
junho 26th, 2007 as 9:22 pm
O episódio relatado, foi estarrecedor e deveria levar a sociedade a sérias reflexões e mudanças de postura, como mãe e advogada teria muito a dizer … Seu texto está absolutamente primoroso !!
BEIJOS, É SEMPRE ENRIQUECEDOR POR PASSAR PELO SEU BLOG!!!
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#7
¬ Chawca
junho 27th, 2007 as 6:13 pm
Já queimaram mendigo, já bateram em um gay na Paulista e agora essa…
As declarações do pai de um deles só provam o quão omisso ele é…
Como acabei de ler no kibe Loco, eles realmente não deveriam ser presos com bandidos, e sim com seus pais…
Perdeu uma grande oportunidade de dar uma lição de como agir para seu filho….
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#8
¬ Bola de Sebo
julho 26th, 2007 as 3:49 pm
[...] obra tem um caráter extremamente subversivo, pois faz uma crítica ao modo como as pessoas de classe social inferior são tratadas, isto é, o preconceito social da nobreza da [...]
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